https://doi.org/10.63923/smhs.2026.141
Resumo
A esquistossomose representa um importante problema de saúde pública no Espírito Santo, especialmente em municípios de maior vulnerabilidade socioeconômica, contato frequente com corpos hídricos e cobertura insuficiente de saneamento básico. Este estudo objetivou investigar a associação entre a ocorrência de moluscos do gênero Biomphalaria, o histórico municipal de Schistosoma mansoni, indicadores de saneamento e a positividade da esquistossomose nos municípios do estado do Espírito Santo (ES). Trata-se de um estudo ecológico longitudinal, realizado com dados secundários referentes ao período de 2011 a 2019, abrangendo 2.766 casos investigados no ES. Foram empregadas análises descritivas, análise de variância, teste do qui-quadrado de Pearson e regressão linear múltipla. Observou-se tendência geral de redução dos casos ao longo do período analisado. A riqueza de espécies de Biomphalaria não apresentou associação significativa com o índice de positividade de exames para esquistossomose. Em contrapartida, a presença de B. glabrata e o histórico municipal de ocorrência de S. mansoni estiveram significativamente associados à maior taxa de positividade da doença. Por outro lado, B. straminea e B. tanegophila apresentaram associação negativa, enquanto a cobertura de tratamento de esgoto, a população total e o percentual de população urbana não tiveram associação à taxa de positividade para a esquistossomose após ajuste pelo efeito das demais variáveis. Os achados indicam que a presença de Biomphalaria por si só não explica a distribuição municipal da esquistossomose, mas destaca a relevância epidemiológica de B. glabrata em relação às demais espécies congêneres registradas no Espírito Santo, e a importância da ocorrência prévia de S. mansoni. Esses resultados reforçam a necessidade de integrar vigilância epidemiológica, vigilância malacológica, ampliação do saneamento básico e métodos moleculares para identificação das espécies de Biomphalaria, visando aprimorar a identificação de áreas de risco e fortalecer as estratégias de controle da esquistossomose no Espírito Santo.
Referências
- CALDEIRA, R. L.; VIDIGAL, T. H. D. A.; MATINELLA, L.; SIMPSON, A. J. G.; CARVALHO, O. S. Identification of planorbids from Venezuela by polymerase chain reaction amplification and restriction fragment length polymorphism of the ITS of the RNA ribosomal gene. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 95, n. 2, p. 171-177, 2000. DOI: 10.1590/S0074-02762000000200006.
- CARNEIRO, A. T. M. et al. Estudo Epidemiológico da Esquistossomose no Brasil. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, Macapá, v. 7, n. 8, p. 1333–1347, 2025. Disponível em: doi.org.
- CARVALHO, O. D. S., Mendonça, C. L. F., Teles, H. M. S., Finau, J., Caldeira, R. L., Scholte, R. G. C., & Mesquita, S. G. (2020). Moluscos hospedeiros intermediários de Schistosoma mansoni do Brasil. Belo Horizonte/Instituto René Rachou/Fiocruz.
- CARVALHO, O. S.; AMARAL, R. S. Biomphalaria glabrata, principal hospedeiro intermediário de Schistosoma mansoni no Brasil. In: CARVALHO, O. S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L. (Org.). Schistosoma mansoni e Esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2008. p. 393-418.
- CARVALHO, O. S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L. (Org.). Schistosoma mansoni e esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2008. 1124 p.
- COIMBRA JÚNIOR, C. E. A.; ENGEL, L. A. Suscetibilidade de Biomphalaria occidentalis do Acre e do Mato Grosso à infecção pelo Schistosoma mansoni e sua implicação na epidemiologia da esquistossomose na Amazônia Ocidental, Brasil. Acta Amazonica, Manaus, v. 12, n. 4, p. 795-799, 1982. DOI: 10.1590/1809-43921982124795.
- CONCEIÇÃO, M. M. et al. Aspectos hídricos e epidemiológicos da transmissão da esquistossomose mansônica. Revista Saúde e Biologia, v. 11, n. 2, p. 55-64, 2016.
- CRUZ, W. M. et al. Saneamento básico inadequado e condições de saúde relacionadas: uma revisão integrativa. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 35, n. 2, e350236pt, 2025. Disponível em: doi.org.
- ESPÍRITO SANTO (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Boletim Epidemiológico da Esquistossomose 2023: Superintendência Regional de Saúde de Vitória. Vitória: SESA, 2023. Disponível em: saude.es.gov.br.
- ESPÍRITO SANTO (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas. Vitória: SESA, 2010.
- FREITAS, B. S.; BERGER, M. S.; VOLPI, S. J. Esquistossomose: compreendendo os fatores para alta prevalência da doença em um município endêmico no Estado do Espírito Santo. Natureza Online, [s. l.], v. 20, n. 1, p. 1-13, jan./abr. 2022. Disponível em: naturezaonline.com.br.
- GAZZINELLI, A. et al. Socioeconomic determinants of schistosomiasis in a poor rural area in Brazil. Acta Tropica, v. 99, n. 2-3, p. 260-271, 2006. DOI: 10.1016/j.actatropica.2006.09.001.
- GRIMES, J. E. T. et al. The relationship between water, sanitation and schistosomiasis: a systematic review and meta-analysis. PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 8, n. 12, p. e3296, 2014. DOI: 10.1371/journal.pntd.0003296.
- GRIMES, J. E. T. et al. The roles of water, sanitation and hygiene in reducing schistosomiasis: a review. Parasites & Vectors, v. 8, p. 156, 2015. DOI: 10.1186/s13071-015-0766-9.
- NAHAS, Maria Inês Pedrosa; MOURA, Arlete Soares Alves de; CARVALHO, Rodrigo Coelho de; HELLER, Léo. Desigualdade e discriminação no acesso à água e ao esgotamento sanitário na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 35, n. 4, e00100818, 2019. Disponível em: doi.org.
- OLIVEIRA, D. S. et al. Schistosomiasis mansoni in urban Northeast Brazil: influence of rainfall regime on the population dynamics of Biomphalaria sp. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 46, n. 5, p. 654-657, 2013. DOI: 10.1590/0037-8682-1671-2013.
- OLIVEIRA, M. A. M.; LINS, C. M. L.; COSTA, L. B. B. Análise da esquistossomose no Sudeste (2013-2023). Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 1173–1187, mar. 2025. DOI: doi.org.
- PARAENSE, W. L. Biomphalaria occidentalis sp. n. from South America (Mollusca Basommatophora Pulmonata). Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 76, n. 2, p. 199-211, 1981. DOI: 10.1590/S0074-02761981000200010.
- PARAENSE, W. L. Distribuição dos caramujos no Brasil. In: REIS, F. A.; FARIA, I.; KATZ, N. (Ed.). Modernos conhecimentos sobre esquistossomose mansônica. Belo Horizonte: Academia Mineira de Medicina, 1986. p. 117-128.
- PARAENSE, W. L.; CORRÊA, L. R. Unsusceptibility of Biomphalaria occidentalis to infection with a strain of Schistosoma mansoni. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 77, n. 1, p. 55-58, 1982. DOI: 10.1590/S0074-02761982000100006.
- PIZA, J. T.; RAMOS, A. S.; BRANDÃO, C. S. H.; CAMARGO, L. S.; CASTRO, N. F. A carta planorbídica do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde (Campanha de Combate à Esquistossomose), 1972.
- RAMOS, R. F. (2018). Modelagem de nicho ecológico de Biomphalaria spp (Preston, 1910) no Estado do Espírito Santo-Brasil.
- SANTOS, M. C. S. et al. Schistosomiasis, soil-transmitted helminthiases and sanitation: a cross-sectional study in a low-endemic area in Brazil. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, v. 65, e41, 2023.
- SANTOS, M. C. S.; OLIVEIRA, G. L.; MINGOTI, S. A.; HELLER, L. Effect of environmental factors in reducing the prevalence of schistosomiasis in schoolchildren: an analysis of three extensive national prevalence surveys in Brazil (1950-2018). PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 17, n. 7, e0011480, 2023.
- SOUZA, H. P. de et al. Doenças infecciosas e parasitárias no Brasil de 2010 a 2017: aspectos para vigilância em saúde. Revista Panamericana de Salud Pública, v. 44, e10, p. 1-11, 2020. Disponível em: doi.org.
- SOUZA, M. D. R.; DE JESUS, D. M. S.; SANTOS, A. H. C.; et al. Risk clusters of Schistosoma mansoni infection in an endemic state of Brazil: space-time modelling and association with socio-economic and environmental factors. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, v. 116, n. 2, p. 135-145, 2022.
- SOUZA, R. Z. R. Ecoepidemiologia da esquistossomose mansoni em áreas de baixa endemicidade no estado do Espírito Santo, Brasil. 2018. Dissertação (Mestrado em Doenças Infecciosas) - Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2018.
- SPAMER, H. (2016). Migração e identidade étnica pomerana no Espírito Santo. I Colóquio Internacional de Mobilidade Humana e Circularidade de Ideias.
- TELES, H. M. S. Distribuição de Biomphalaria tenagophila e B. occidentalis no Estado de São Paulo (Brasil). Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 23, n. 3, p. 244-253, 1989. DOI: 10.1590/S0034-89101989000300009.
- TEODORO, T. M.; JANOTTI-PASSOS, L. K.; CARVALHO, O. S.; CALDEIRA, R. L. Occurrence of Biomphalaria cousini (Mollusca: Gastropoda) in Brazil and its susceptibility to Schistosoma mansoni (Platyhelminths: Trematoda). Molecular Phylogenetics and Evolution, v. 57, n. 1, p. 144-151, 2010. DOI: 10.1016/j.ympev.2010.05.019.
- VAZ, J. F.; TELES, H. M. S.; CORRÊA, M. A.; LEITE, S. P. S. Ocorrência no Brasil de Biomphalaria occidentalis Paraense, 1981, em um foco de esquistossomose mansônica. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 17, n. 5, p. 343-361, 1983. DOI: 10.1590/S0034-89101983000500001.